terça-feira, 24 de abril de 2012
quase borboleta
Quando eu era pequena acreditava que ser mulher era simplesmente usar batom e salto alto, beijar na boca e não dormir às oito. Gostaria de poder estar certa, gostaria de não ter amadurecido tanto o quanto foi preciso, mas ao mesmo tempo agradeço, por ter crescido tanto a ponto de reconhecer o quão grande e sábio eram os meus pensamentos infantis, mesmo que estivessem errados. E enquanto o meu corpo não cresce tanto quanto a minha mente já cresceu, eu vou fingindo que ainda sou pequena empresa, para driblar certos impostos que mesmo tendo condições e porte pra enfrentar, ainda não os quero. Eu vou fingindo, que a minha laranja ainda está verde para evitar que ela seja arrancada do pé, e vou ficando mais azeda, e formando um escudo banal pra me proteger da vida. E talvez seja esse escudo que não me permita ser completamente mulher, e por enquanto vou sendo somente uma quase mulher, e seria hipocrisia dizer que não existe receio algum nisso, se não houvesse não seria necessário escudo algum. Quase mulheres usam batom, sapatos altos, beijam na boca e dorme bem depois da oito, mas isso não as tornam completamente mulheres. Ainda é necessário que o casulo se quebre e que a borboleta realmente se mostre, mesmo que isso a exponha aos perigos, eles são necessários. É necessário se deixar amadurecer, deixar com que o azedo da laranja de lugar ao doce, e mesmo isso a tornando atraente e vulnerável, essa é a intenção da natureza. Para ser completamente mulher, eu só preciso entender que ser quase mulher, e ter medos e inconstâncias, e ter receios é bom; até o dia em que as asas estejam completamente formadas e então o escudo não será mais necessário porque se passar desse dia, deixará de ser um escudo e passará a ser uma prisão. E mulheres completas não se prendem a nada.
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