sábado, 1 de novembro de 2014
Vazio
É difícil escrever qualquer coisa agora que não tenha nenhuma frase da Adriana Calcanhoto. Queria compilar todas elas e escrever o que eu estou sentindo agora, ou não estou sentindo. Eu passei tanto tempo sem me abrir aqui, que já nem me lembro se ainda sei fazer isso. Meu amor cadê você? Eu acordei, não tem ninguém ao lado. Porque sempre que eu me encontro diante desse computador eu me perco diante de mim. Eu perco o chão, eu não acho as palavras, eu ando tão triste, eu ando pela casa, eu perco a hora, eu chego no fim, eu deixo a porta aberta, eu não moro mais em mim. Volta já pro seu barco, Gabriella. Que texto mais confuso é esse? Eu não sei. Sou libriana, sou a confusão em forma de gente. Eu tô vazia. Eu consigo vomitar trinta mil palavras de uma só vez. Trinta mil por extenso pro número parecer maior. Mas na verdade ainda não deu nem cem. E o meu coração, embora finja fazer mil viagens, fica batendo parado naquela estação. Sabia que eu não devia nunca ter feito aquela viagem. Foi única. Foi linda. Foi sem volta. Voltou. Não tem mais nada na mala, mais nada na alma. Não, espera. Tem sim. Tem um pouco de poeira. Não, não é poeira. Tem um pouco de vida aqui. Não, não tem não. Tem sim. Não, não tem. Mas ainda escrevo. Mas não faz sentido. Nada? Nem uma palavra. Nada ficou no lugar, eu vou derramar nos seus planos o resto da minha alegria, que é pra ver se volta. Mais é claro que não volta. Que é pra ver se você vem. Mais é claro que não vem. Que é pra ver se você olha pra mim. Mais é claro que não olha. Cariocas não gostam de dias nublados. E eu sou a tempestade. A tempestade que mistura o nada e retira o nada do lugar. E cabe em nada qualquer palavra que você imaginar. Ta difícil de engolir. Porque minha garganta é quase tão podre quanto meu coração. Ou mais. Eu não sei como pode ser vazio um espaço tão cheio de nada. Porque se tem nada não ta vazio. Mas nada não é nada. Então. Então não tá vazio. Queria falar sua língua. Queria um chá, na verdade. Agora, mas depois a sua língua. Queria terminar esse texto sem nexo, sobre coisas aleatórias que estão surgindo na minha cabeça pós ouvir o perfil da Dricanha. Você deu esse apelido ridículo pra ela? Você sabe que eu gosto de por nome nas coisas. Mas no caso, essa coisa já tinha nome. Você sabe que eu gosto de por um nome que seja meu nas coisas. É, maquina de escrever não é tão bom quanto Macabéia, sou obrigada a concordar. Isso, e nem travesseiro em formato de coelho é tão bom quanto Lili. Você é boa nisso. Sim, eu sei. Você se lembra como você chamava aquela árvore do prédio das sociais? Aquela que ficava no meio né? Sim. Não me lembro. Lembro que era um carvalho. Era Carvalhinha. Porque tudo sempre no feminino? Empoderamento. Bem pensado. Como você está boa consigo mesma hoje. Porque você fica dizendo que não tem nada dentro de você, e olha aí quanta coisa. Quanta coisa inútil. Certifique-se de não reler isso nunca mais.
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